Mauro Costa no Panoramofônico

Mauro Costa _ Panoramofônico _ Fragmentos da Fala
(link para compêndio de todos os fragmentos dentro da plataforma Estúdio Livre)

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“ O Luís fala como escreve…numa intensidade curiosa…ele diz que me viu falar em 1986…eu nunca vi o Luís… você está no Instituto de Arte da UERJ1? é?…olha que beleza…grandes amigos lá…Cristina Pape2 …Ricardo Basbaum 3… [nós nunca nos afastamos]… mas o artigo 4 dele fez uma… é bastante perturbador, não sei como vocês leram… que ele vai desde…esse desastre que acontece após a morte da Funarte 5… e o contínuo desmoronamento das formas institucionais de governo sobre as artes no Brasil e acaba com os coletivos [de arte ]…que eu acho que ele trata ainda de uma maneira um pouco melancólica…

[…]

porque a coisa das redes e dos coletivos, que é mais ou menos o que você pontuou aí com a questão do teu texto circular pela internet em outras línguas e não no papel, é isso aí… quer dizer… eu estou trabalhando, já desde bastante tempo, desde 92 … na UERJ, lá em Duque de Caxias, …um negócio chamado de Faculdade de Educação da Baixada Fluminense 6, e foi, tem sido um experiência muito interessante ver este processo de transformação que a baixada teve…que dá por exemplo no Imaginário Periférico 7, que eu acompanhei desde o início, um grupo de artistas fazendo arte contemporânea, usando linguagem de arte contemporânea , dos quais só o Júlio Sekiguchi 8 e o Jorge Duarte 9 tem formação acadêmica, e o Ronald [Duarte]10… e a coisa começou muito curiosa, Ronald pode me corrigir, começou assim, durante a ditadura tinha um cara, um artista…

[…]

antes do Imaginário ser criado, eu conheci o Deneir 11, o Raimundo Rodrigues 12 e o Júlio Sekiguchi, eu contratei eles para serem animadores culturais, que eu coordenava uma área de programas de animação cultural dos CIEPS, na época do Darcy Ribeiro 13 … que era botar um artista…podia ser ator, fotógrafo, cineasta, poeta…dentro de cada Ciep 14, fazendo uma articulação criadora…estimulando processos criadores com a comunidade, com os professores, com os alunos e com os funcionários…botar todo mundo misturado fazendo coletivos, fazendo produções coletivas de arte… isso num programa de educação pública…”

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[aparte do Ronald Duarte]

Colaborando um pouco com a história, que quando você fez essa contratação, acho que você se remete a 94, 93 a 94, em 92 nós abrimos o primeiro centro cultural na baixada fluminense, em Nova Iguaçu, foi lá naquela pracinha do skate, foi a primeira vez que o Imaginário Periférico realmente se reuniu com esses seis, eu, Jorge Duarte, o Tavares, Roberto Tavares 1, Deneir, Raimundo Rodrigues e Júlio Sequeguhi, fizemos uma primeira exposição lá e a partir daí…ali inclusive foi, veja bem que no final do governo Brizola, que vai dar origem às animações culturais, que acho que o Raimundo, o Júlio e o Deneir foram trabalhar e essa idéia do Imaginário, ela nasce justamente dessa falta de artistas chegarem até a baixada e que estava muito centralizada aqui no Rio, então como …já tínhamos feito o Fundão, estávamos na Escola de Belas Artes 2e tudo, resolvemos voltar à baixada levando o que a gente tinha de conhecimento para tentar abrir um centro cultural lá, que inclusive eu estou tentando ainda uma idéia de um museu do Imaginário… na Fazenda São Bernardino 3

[…]

uma vez eu estava conversando com o Tunga 4, grande escultor e artista plástico brasileiro… e falei muito do Imaginário Periférico, e o Tunga disse, que coisa estranha, isto só está acontecendo no Brasil e na China, são os únicos países no planeta onde …a população, as classes populares estão começando a produzir arte contemporânea, a consumir e a produzir arte contemporânea…que na Europa e nos Estados Unidos artes plásticas contemporânea é coisa para universidade, para classe média universitária…que tem alguma idéia do que é aquilo ou vai fundo ou vira profissional… mas você não tem um, como é aquele halterofilista… o Fiúza 5

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estão isto é… pessoas que aprendem sozinhas, num processo… ou aprendem num coletivo, aprendem na troca com outros…não têm formação acadêmica e fazem um trabalho que é linguagem contemporânea de arte da maior qualidade e…fazem coisas assim…pegam a Central do Brasil 1, está no meu artigo 2 quem leu… e transformam aquele salão da Central do Brasil numa galeria de arte… e fica 15 dias a exposição dentro… do hall, da gare da Central do Brasil e ninguém quebrou nem rasgou nada [nem roubaram]… passam milhares, centenas de milhares de trabalhadores que nunca entraram numa galeria de arte, ali pela Central do Brasil… e as pessoas paravam para olhar…essa intervenção, essa maneira de fazer… é mais ou menos o que a rádio comunitária faz…

[…]

como a Rádio Panorama 3 lá no Pavão-Pavãozinho …é panorama porque ele fica dentro daquele CIEP que é um prédio alto ali em Ipanema e pega o panorama de Ipanema inteira e da Lagoa e e transmite para a Lagoa e para Ipanema, o pessoal que faz programa na Rádio Panorama diz é legal porque a nossa platéia é todos os artistas que moram no Rio de Janeiro, na zona Sul aqui.. a gente transmite para eles…para a favela e para os artistas que estão lá no alto… então tem algumas experiências de rádio comunitária que ainda são verdadeiras 4

[…]

a minha aula é no ar…eu dou aula sobre rádio…chama Rádio 1 e Rádio 2… onde …a gente trabalha o tudo que não aparece no rádio para aquela população… de Duque de Caxias…que surpreendia…botar paisagem sonora 5…invenção do Murray Schafer 6…que é gravar os sons ambiente…teve um programa mundial de paisagens sonoras das cidades .você podia ouvir Roma, ouvir Nova York, ouvir Paris … os artistas fazem uma paisagem sonora das cidades… para tocar no rádio…como… aqui no Rádio Forum. 7.. é um rádio coletivo… de gente que produz rádio e que odeia rádio, este rádio comercial… é a Liliam Zaremba 8 da Rádio MEC que fazia o programa Tempos Modernos 9…agora é pesquisadora do Mec e produz programas… produziu pro Smetak. 10… para a Bienal do MERCOSUL 11, que é a primeira que tem rádio, porque rádio é arte 12.

[…]

existe um negócio chamado rádio-drama que não é teatro pelo rádio… rádio-drama são palavras, sons, música e ruído… na Alemanha é basicamente o Neues Horspiel 13…que é um gênero de fazer rádio…uma coisa que é uma experiência sonora…quando o rádio começou tinha isso 14…Berthold Brecht 15 fez rádio, Walter Benjamin 16 fez rádio, Antonin Artaud 17 fez rádio, Samuel Becket 18 fez rádio…

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A música concreta nasceu do rádio… Pierre Schaffer 1, que inventou a música concreta em 48, trabalhava na ORTF… era um sonoplasta de rádio…fazia música com fundos e barulhos de novela…e saca de repente que ele pode pegar aqueles ruídos… em vez de ser só para fazer acompanhamento de novela…fazer música só com ruídos…e inventa a música concreta que está na base da música eletroacústica…

[…]

outro dia saiu uma notícia… prenderam o cara que criou a TV ROC 2… a TV ROC é a TV Rocinha, uma TV a cabo que tem na Rocinha… um argentino doido 3, gente fina…chegou lá e cabeou a Rocinha inteira, distribuindo a net, cobrando dez pratas, quinze pratas…a Rocinha toda tinha net, depois disso ele foi lá na gerência de marketing da globo e disse assim…

[…]

e a gerência logicamente topou… no outro dia, não sei por que, de repente eles foram lá e fecharam tudo, aparecia a polícia federal carregando o equipamento da televisão… no jornal da Globo News… e dizendo que estavam pirateando a Globo… o presidente da Agência de Notícias da Favela 4 é o presidente da Associação de Moradores da Rocinha e aí publica… o que realmente aconteceu…

[…]

a Agência de Notícias da Favela tem acordo com a BBC 5 e a Reuters … isso é esse momento que a gente está vivendo…então a Agência de Notícias da Favela tem reporteres formados nas favelas para escreverem, e filmarem, e fotografarem o que acontece na favela, para dar a versão da favela, e não a versão da Globo, do que está acontecendo na favela… agora a gente está em plena guerra que gente só vê através da Globo…

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Eu vou mostrar o Escuta… o Carlos Alexandre 1é um garoto lá de Caxias que aprendeu tudo sozinho e agora está fazendo mestrado em comunicação, mas é um hacker, e ele fez a primeira transmissão de televisão lá de Caxias a uns dois anos ou três anos atrás…ele baixou…um tricaster 2…um negócio para fazer montagem e edição ao vivo, TV ao vivo…tinha uma câmera lá…conseguiu outra câmera …agente transmitiu um encontro com o Tortura Nunca Mais 3… e um filme da Beth [ Formaggini ] 4…e o debate com o pessoal e a gente ariscou na televisão…custou esta televisão R$ 39,00, que foi o preço do cabo…para ligar o computador onde estava sendo editado…ao receptor de internet da rádio…

[…]

a Janete El Haouli 5 foi diretora dez anos da Rádio Universidade da Universidade Estadual de Londrina 6…é uma musicóloga, absolutamente figura, vocês vão ver trabalho dela dentro do site…o Júlio de Paula 7 faz um programa chamado Veredas 8…um programa de música tradicional, viaja pelo pais inteiro com a Rádio Cultura de São Paulo…Rodolfo Cesar 9 tem um site Sussurro 10, que é do Laboratório de Música e Tecnologia da Escola de Música Federal do Rio de Janeiro 11, que tem simplesmente toda a obra de música eletroacústica de todos os compositores brasileiros de graça para quem quiser….


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Olha só… nos links aqui aparece lá o Sussurro 1…cada letrinha dessa tem todos os compositores brasileiros que fazem esse tipo de música… essa música toda é oferecida de graça porque compositor de música contemporânea no Brasil não toca em lugar nenhum, não grava em lugar nenhum, então…bota no site e dá de graça para quem quiser ouvir…você pode ouvir ou pode fazer download…então, isso é um coletivo monstruoso…

[…]

a gente está fazendo um link desse coletivo que é todos os compositores brasileiros com os produtores de rádio que eu acabei de falar…além de Rodolfo César, Tato Taborda 2…outro compositor que faz música para dança, fez música para cinema, atualmente está fazendo música para dança…casou com uma bailarina fantástica… Maria Alice Poppe 3 que era do Stacato 4, grupo do Paulo Caldas 5

[…]

David Tygel 6 faz música para cinema, ficou com a área… de música para cinema e a Vera Terra 7… é a maior interprete brasileira da música de John Cage 8, ela é musicóloga… faz piano preparado…tocou lá em Londrina… que a origem do Rádio Forum foi o encontro desse mundo todo lá em Londrina em 2008 9.

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Todas essas experiências que são da música contemporânea no Brasil, que infelizmente no Brasil é zero… as artes plásticas a gente briga bastante…os músicos, os compositores contemporâneos, a maioria está dentro da universidade dando aula…

[…]

outra criação do Carlos Alexandre. .. uma rede de relacionamentos dos alunos e dos professores e todo mundo que quiser entrar para a faculdade lá da Baixada Fluminense… no Ning 1…o Ning é um provedor que fica na Ucrânia… e tem redes de relacionamento no planeta inteiro… enfim, saber usar a internet… aqui você tem a Rádio Kaxinowá 2, que é nossa rádio, a rádio comunitária… e aqui tem uma televisão, que é… a ipTV Kaxinowa 3… e o que que é isso?

[…]

só para terminar, o menino que faz o programa de hip hop, que é de lá, Marcelo Anarquia 4 está desde o início da rádio, é um articulador de hip hop 5 lá da Baixada, Movimento Revolucionário Hip Hop de Vila S. Luís…esse cara começou a fazer o programa e seis meses depois começou a receber carta da penitenciária de São Gonçalo, do Presídio de São Gonçalo, que fica do outro lado da baía, em frente à Duque de Caxias, que ouvia o programa de hip hop dele porque onda de rádio aumenta a velocidade quando passa por cima de água…

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