Friche contra os espaços massificados

Marcia Ferran

originalmente encontrado aqui.
descarregue a versão pdf aqui.

Colóquio na França discute ocupação de áreas das cidades por projetos artísticos e culturais

O tema da 25a. Bienal de São Paulo, que abre no dia 23 de março, será concentrado nas “Iconografias Metropolitanas”. Enquanto isso, a terceira edição do Arte/Cidade está saindo da fase dos preparativos. Esse debate das urbanidades e dos novos espaços gerou uma expectativa febril.

Nos dias 14, 15 e 16 de fevereiro próximo acontecerá na Friche La Belle-de-Mai, em Marselha, o Colóquio Internacional “Novos Territórios da Arte”, organizado pelo Ministério da Cultura e Comunicação da França. O foco do encontro será a discussão de projetos artístico-culturais que ocupam e recuperam espaços e imóveis anteriormente ociosos das cidades.

Representativos de uma dinâmica ao mesmo tempo social, cultural e urbana, firmada na década de 1990, esses projetos, quase sempre localizados em periferias, subúrbios ou áreas industriais, evidenciam a atualidade do diálogo entre arte e cidadania e a viabilidade de iniciativas coletivas à margem de políticas culturais oficiais.

O colóquio vem consolidar um novo interesse pelo tema da parte do Ministério de Cultura francês, que recentemente havia encomendado um relatório que pudesse delinear um panorama geral dessas iniciativas “à margem” da política cultural oficial. O relatório repertoriou 30 espaços/projetos de vocação interdisciplinar, descritos como “intermediários, alternativos, transversais” // 1. Acima de tudo, escapam às classificações existentes na cena cultural francesa, tradicionalmente conhecida pelo excesso de institucionalização de suas iniciativas.

Os exemplos mostram experiências bem sucedidas, em que artistas e operadores culturais independentes redescobrem e ocupam por diferentes meios contratuais legais ou até ilegais (“squatters” em áreas centrais, por exemplo), edifícios abandonados e muitas vezes situados em zonas com sérios problemas sociais.

Esses projetos, propostos como lugares de criação, exposição e difusão, e assumindo não raro uma dimensão mais conhecida, na França, como sociocultural, conseguem desencadear uma dinâmica de revalorização socioespacial, adquirindo assim também um papel cada vez mais importante nos projetos de desenvolvimento urbano. A expressão repetida para definir todas essas ações é “aménagement culturel du territoire”, algo como “organização cultural do território”.

Apostando na convivência multiartística e driblando dificuldades de várias ordens, os projetos têm finalmente conquistado a curiosidade do órgão oficial responsável pela política cultural francesa. Como um aspecto constante entre as diversas iniciativas pesquisadas, aparece a dificuldade de acesso aos equipamentos culturais franceses centrais já consagrados e bastante institucionalizados, mas, acima de tudo, uma nova percepção do papel do artista contemporâneo, assim como do “fazer artístico”.

Isto abarca não somente conteúdos estéticos, mas também novos processos de realização e modos de exposição, sobressaindo-se um compromisso do fazer artístico para uma dimensão coletiva e cotidiana. Em sua base, está a necessidade de espaços mais “maleáveis, polivalentes, oferecidos em abundância em antigas instalações fabris remanescentes de diferentes fases industriais”.

Esses amplos espaços têm por objetivo seduzir um público não especializado, composto também pela vizinhança, aberto em graus maiores ou menores a deambulações de “leigos”, possibilitando a “contaminação” e troca cotidiana artista/sociedade. Entre as práticas escolhidas para se efetivar essa coletivização, são oferecidos constantemente projetos de residência artística, por vezes com alojamento e local de trabalho no mesmo edifício.

A “Friche” institui novas urbanidades, uma forma de resistência aos “não-lugares massificados”, tendência comumente atribuída ao fenômeno de mundialização. O assunto mereceu um artigo importante de Michèle Collin, na revista “Multitudes”, nº 6 (setembro de 2001). Originalmente, “friche” era um termo que designava sobras de terra. Hoje, remete a iniciativas culturais que conseguem acarretar projetos urbanos complexos e polêmicos. Sua escala costuma diferir a cada cidade.

Exemplo desta dimensão fortemente urbanística assumida e mesmo enfatizada pelos “operadores culturais” envolvidos, encontra-se no caso da Friche La Belle-de-Mai, em Marselha, cujo diretor foi durante cinco anos ninguém menos do que Jean Nouvel, arquiteto cultuado na cena francesa, com sua obra atualmente em exposição no Centre Georges Pompidou. La Belle-de-Mai é um dos mais audaciosos exemplos de reinvestimento cultural do território, razão pela qual sediará o colóquio internacional.

Abrangendo 12 hectares de uma antiga fábrica estatal de tabaco situados ao longo da via férrea, o megaprojeto iniciou sua história a partir do encontro de dois diretores de teatro e um agente cultural da Prefeitura da cidade, que perceberam no local um potencial espaço para criação e difusão no final da década de 1980. Após negociações com a proprietária do complexo (SEITA), em 1990 a primeira peça de teatro foi apresentada num dos três “ilôts” (grandes edifícios que originalmente serviam a fases diferentes da cadeia de produção de cigarros), situado no bairro Belle-de-Mai, conhecido por altas taxas de desemprego e mais de 700 hectares de “friches” // 2.

A partir de 1992 forma-se o Système Friche Théâtre (SFT), que passa a ser o organismo-base que gera todos os outros projetos a serem instalados no complexo. Com uma dimensão territorial imensa, a viabilidade da reconquista do espaço encontrou seu rumo quando do lançamento oficial em 1996 de “Um projeto cultural para um projeto urbano”, em que a cultura é assumida como uma alavanca de desenvolvimento econômico para o bairro, além de relançar a cidade como um pólo alternativo de arte no país.

A fim de viabilizar a transformação da área, ao mesmo tempo assegurando sua vocação artística do complexo, três componentes passarão a ocupar os três “ilôts”, constituindo os principais pólos. O primeiro destina-se à cultura viva e abriga a “célula-mãe”. É o Sistema Friche Teatro (SFT), os artistas os produtores artísticos de toda a Friche.

O segundo destina-se ao setor econômico, com o desenvolvimento de uma incubadora de empresas, consagrada às indústrias culturais, do audiovisual e de multimídia. O terceiro, já quase todo reformado, destina-se a setores patrimoniais, com a instalação do Centro Interregional de Conservação e Restauração do Patrimônio (CICRP), dos Arquivos da Cidade de Marselha, além das Reservas dos Museus de Marselha.

O primeiro “ilôt”, setor mais diretamente artístico, abriga mais de 60 estruturas representativas de todas as disciplinas artísticas e culturais, (por exemplo: “Voix Off”, “Corps à Sons”, “Astérides”, “Vidéochroniques”, “Les Films de la Belle de Mai”…), oferecendo estúdios, salas de ensaio de dança, teatro, criação multimídia, além de espaços de exposição e shows. Só para dar uma idéia da importância social da iniciativa, o STF gera 400 empregos e acolhe 900 artistas anualmente, além de 90.000 visitas ao pólo.

A Friche atualmente é financiada por dezenas de investidores privados e públicos, mas a continuação do projeto e as tendências de sua existência ainda são nebulosos. Sua escolha para abrigar o Colóquio não deixa de ser mais um episódio de sua estratégia de divulgação e uma ótima oportunidade de exemplificar aquilo a que se propõe: a articulação de arte, cultura, sociedade, debates coletivos e promoção da cidade.

Acompanhado com atenção pelos artistas e operadores culturais originalmente responsáveis pelas iniciativas, o recente interesse do Ministério de Cultura pelo tema está longe de merecer unanimidade ou até mesmo um consenso.

Paralelamente aos primeiros indícios de sucesso de algumas destas iniciativas, surge também o temor de uma recuperação dos projetos pelas malhas institucionalizantes do Ministério da Cultura e uma possível cooptação dos conteúdos e pesquisas estéticas. Uma das preocupações desse Ministério é, sem dúvida, diminuir o atraso em relação aos seus colegas europeus, como Alemanha e Holanda, que há muito promovem e incentivam a ocupação artística de complexos industriais obsoletos. Por outro lado, os mais críticos vêem uma função demasiadamente social-assistencialista sendo delegada aos artistas.

Ainda que não completamente originais no cenário europeu, as experiências francesas têm, de fato, muito a acrescentar ao contexto brasileiro, a começar pela iniciativa coletiva de artistas até a atenção dada pelo Ministério da Cultura, passando pela sensibilidade à questão artística dos agentes envolvidos nas diversas fases de negociação dos projetos.

O título do colóquio incorpora uma nova perspectiva sobre os projetos, transferindo a ênfase da dimensão espacial da expressão “novos espaços” para uma noção de “território”, mais contemporânea, porém não menos complexa. Abre-se assim um leque para a confrontação com contextos internacionais.

Em termos especificamente estéticos resta perceber de que maneira os novos territórios vêm sendo incorporados ou oferecem outros elementos para a renovada (pois de nova não tem nada!) relação entre artista e sociedade, coletivização da arte…

O encontro deveria ser também uma ocasião para debater reais possibilidades de inovações de linguagem artística, para além das consequências urbanísticas e econômicas tão festejadas nesta era do espetáculo consumado. Como se colocarão os artistas entre projetos culturais, sociais, urbanos e cidades-fetiches?

link-se
www.lafriche.org
Ministério da Cultura francês – http://www.culture.fr

Marcia Ferran

Arquiteta, Mestre em Urbanismo pela UFRJ, Doutora em Filosofia e Urbanismo (co-tutela Université de Paris 1- SORBONNE e UFBA). Implantou e coordenou eventos científicos na França como I Rencontre Culture em 2004 na Embaixada do Brasil e Ciclo de Palestras científicas APEB-FR – Associação de pesquisadores e estudantes brasileiros na França. Foi selecionada como convidada do programa Courants du Monde promovido pela Maison des Cultures du Monde, Paris em 2001. Atuou como professora do curso de Produção Cultural da UFF e ministrou palestras na FAU/UFRJ. Tem publicado artigos e proferido palestras sobre projetos culturais e artísticos em subúrbios da França e do Brasil, abrangendo universo desde Lonas Culturais até o Musée Précaire de Thomas Hirschhorn. Em 2006 foi Coordenadora das Oficinas do Sistema Nacional de Cultura/ MINC e atualmente é Gerente de Espaços Culturais da Secretaria de Cultura do Município de Vitória/ES.

 

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